quinta-feira, 28 de maio de 2009

avenidas

trapezistas
pintores
poetas
etc
e

não políticos, títulos ou hierarquia

domingo, 24 de maio de 2009

monólogo questionado

Ah, e o que é que se responde
a qualquer questionamento
ou desafio ou inesperada declaração
de “ah, eu te amo tanto
que te vejo voar com os pássaros
e te vejo flutuar com os meus sonhos
e te vejo dançar com a vassoura
mesmo quando ela está quieta
ali encostada na parede”
ou à própria necessidade
de respostas que bate à porta
quando as coisas prometem ficar bem, mas
não passam de promessas vãs e nos deixam
atarefados com pensamentos e horóscopos
e milkshakes e catástrofes pessoais?

E por que é que todos vocês me olham
com toda essa atenção e interesse
como se eu estivesse aqui para
contar-lhes algo estritamente relevante ou
exibir-me com algum truque fascinante
ou perder-me vergonhosamente com as palavras?

Por que é que ninguém diz palavra alguma e essa
luz vem direto na minha cara e eu estou
vestindo essas roupas que não são minhas e
dizendo todas essas coisas que me mandaram dizer
em vez daquelas que eu realmente deveria?

terça-feira, 19 de maio de 2009

canção

ousaria cantar
uníssono com o vento
uma canção sem sobras
concisa, convicta
desesperadamente apaixonada

uma balada trágica
uma balalaica encantada

e tocar com instrumentos mágicos
meu eterno lamento
e ouvir o ressoar de corações
[seguindo a melodia]
rimar com o vento

segunda-feira, 11 de maio de 2009

as cores de heloísa

a heloísa agitava os pés-de-pato de mergulhador
para se refestelar na banheira
e enfeitar a cabeça de espumas multicoloridas
e vencer batalhas de corsários

a heloísa construía uma escada com pensamentos
e escorregava em tobogãs de arco-íris
e seu cabelo esvoaçava delicioso
e fazia toda a gente feliz

a heloísa escondia as mãozinhas sob o travesseiro
para não quebrar as unhas cintilantes
combatendo pesadelos

e a heloísa assoprava sonhos azuis e cor-de-rosa e vermelhos
e assistia fascinada no ar
à dança mágica de suas cores oníricas

quinta-feira, 7 de maio de 2009

rascunhos para uma poética

1

declararemos crime poético
a verossimilhança obrigatória
o elogio do crível
a plena busca por realidade
o falido império do possível

celebremos o mágico
o lúdico
o imaginário

elevemos a palavra, a forma
elevemos a irrealidade
o impossível
o infinito!

busquemos o céu
planemos nos poemas
flanemos pelo tempo
apaixonemo-nos perdidamente
entreguemo-nos
a cada verso
a cada metáfora

mergulhemos profundamente em cada metáfora:
desesperada fuga
da atroz realidade
do cotidiano

dancemos ébrios
à beira dos abismos
da imaginação:
nossos abismos fascinantes
nossa inspiração poética

2

quero um poema
que encerre fúria e paixão
desespero e inconformismo
revolta e insubmissão
lucidez e desvario:
um flerte:
enlouquecer atônito
desejo que se liberte do âmago
luz que se espalhe amiúde
e cubra o mundo de heroísmo e glória

quero um poema equívoco
um mergulho infinito no caos
um sonho que dispare em voo alucinado
um disparate, afinal
grito de versos incendiários
que alimentem esta pirofagia
que tantos teimam em chamar de arte
mas que o poema exalte enquanto vida!