uma casa branca
e um telhadinho todo branco
de neve
um poema ensolarado
e os ramos verdejam
primaveras fora de estação
os desejos escorregam
em chão de folhas molhadas
por chuvas de derretimento
e sossegos imaginários
de verdezinhos sensuais
despontam dançantes!
sexta-feira, 24 de abril de 2009
um poema ensolarado
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cesare
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sábado, 18 de abril de 2009
das ideias que ameaçam fugir
ingenuidades fendidas
incautas e sublimes
e excitações fervorosas
apavoram as ideias obscuras
desvaneço feito bruma
e me espalho pelo ar
enquanto meus segredos, sussurrados
resplandecem no céu disparatados
às vezes temo que as ideias fujam
e me levem consigo
atrás de desvarios
às vezes temo que as ideias fujam
e me deixem sozinho
absolutamente vazio
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cesare
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quinta-feira, 16 de abril de 2009
duas cenas, dois retalhos
Estréia hoje no Teatro da Urca, em Poços de Caldas – MG, a peça “Retalhos de Vila das Águas”.
A montagem da Cia Bella tem no elenco Elisângela Virga, Grace Souza, Nando Gonçalves e Sílvio Noronha e a direção de Marli Marques.
O texto é meu, costurando os retalhos que cada uma das personagens [encarnadas pelos atores] veio me contar quando fomos apresentados.
Sobre a peça já havia publicado um release.
Gostaria de agradecer à Cia e à Marli pela confiança e pelo desafio que foi esta descoberta de gênero. Abraços e grande estréia a todos!
Seguem duas cenas, nem tanto emblemáticas do enredo, mas bastante esclarecedoras quanto à estética:
*
ZÉ DE ABREU [anunciando]
Atenção, atenção: fotos com o touro sapateador! Touro mais vistoso que esse nem na capital! O tourão mais manso e agradável de todas as minas gerais!
Uma dama da sociedade se aproxima e acaricia o touro.
DAMA
Mas que bonito esse seu touro, hein? Forte, másculo, agressivo... [e o touro se exibindo, peito estufado]
ZÉ DE ABREU
É mesmo um touro muito bunito. É Zé Aparecido o nome dele. E é valente como só!
DAMA
Não duvido nem por um segundo da valentia de um tourão desses!
ZÉ DE ABREU [se esforçando para conseguir a pronúncia mais correta possível]
E a madame quer tirar uma foto com ele?
DAMA
Na realidade eu gostaria de fazer uma proposta. Você sabe quem sou eu, não é? A mulher do Barão...
ZÉ DE ABREU
Sei sim, Madame...
DAMA
Então... E teremos uma grande festa aqui em Vila das Águas, em homenagem ao Imperador, que vai vir nos visitar... Para celebrar faremos uma grande toureada. Você sabia que o Imperador adora toureadas?
ZÉ DE ABREU [já desatento em seu esforço pelo português correto]
Num sabia não...
DAMA
Então, ele gosta muito de toureadas! E aposto que não existe no Brasil inteiro um touro melhor pra agradar o Imperador que esse seu tourão valente... Aliás, o seu tourão seria a estrela da festa! Ia dar até em jornal da capital!
Zé de Abreu e o touro não conseguem esconder o entusiasmo e a Dama não tem mais a menor dúvida de que conseguiria a atração para o Imperador.
ZÉ DE ABREU
E o que é que eu tenho que fazer pro meu touro ir lá agradar o Imperador?
DAMA
É só assinar este documento aqui e o Zé...
ZÉ DE ABREU
Zé Aparecido, Madame.
DAMA
É só assinar aqui e o Zé Aparecido amanhã será uma estrela!
E Zé de Abreu assina empolgado o documento.
ZÉ DE ABREU
Viu só Zé Aparecido? Amanhã ocê vai ser uma estrela! Vai se mostrá pro Imperador!
DAMA
É isso mesmo, Zé Aparecido! Amanhã você será a grande estrela da festa! [e para Zé de Abreu] Às quatro horas então a cavalaria virá buscá-lo. Trate de deixar tudo pronto. E arrez-vous!
A Dama sai da cena. Zé de Abreu e o touro não conseguem disfarçar o entusiasmo. Zé Aparecido já ensaia os novos passos de sapateado.
ZÉ DE ABREU
Cê vai fazê um sapateado especial pro Imperador!
Zé de Abreu tira a capa da câmera e posiciona-se como toureiro. O touro percebe a provocação como ensaio e avança. Zé de Abreu desvia da primeira manobra e Zé Aparecido sapateia. Zé de Abreu aplaude e anuncia:
ZÉ DE ABREU
E quem é que vai querer fotos com o touro que vai se exibir pro imperador?!!!
E enquanto Zé de Abreu e o touro ficam maravilhados ainda em cena, duas dondocas que ouviam a negociação se exaltam ao saber da grande notícia:
-- Ai, o Imperador vem pra Vila das Águas! Vou preparar meu vestido mais bonito!
-- E vai ter uma festa! Temos que estar lindas e arrasar nessa festa!
-- Com toureada e tudo! E dizem que vai ser com o famoso El Matador, o maior toureiro do mundo! Uma lenda que nunca deixou nenhum touro escapar e com um bigode tão charmosoooo...
-- Eu acho toureada uma selvageria! Maldade com os animais...
-- [histérica] Ah, eu acho é muito sexy, vermelho, adrenalina, sangue, aaaah!
Entra um jornaleiro anunciando as manchetes:
JORNALEIRO
Extra, extra! “Imperador vem pra Vila das Águas visitar o Barão”, “Churrascada depois da toureada!”. Extra, extra! “Imperador vem pra Vila das Águas visitar o Barão”, “Churrascada depois da toureada!”.
E então Zé de Abreu e o touro percebem a enrascada em que se meteram. Caíram numa cilada e agora em desespero.
ZÉ DE ABREU
Ai meu Deus do céu, minha Nossa Senhora das Água, meu Anjo da Guarda!!! Que foi que eu fiz??? E agora me vem esse matador aí de não sei donde... Protege o meu Zé Aparecido, meu Jesuzinho! Ele é tudo que eu tenho nessa vida, minha Nossa Senhora das Água. Num pode virá churrasquinho assim! Aqui ó, reza aqui comigo, Zé Aparecido! Vamo pedi pra nossa querida Nossa Senhora das Água protegê ocê nessa confusão que nóis se metemo.
[Rosa e a carta]
Rosa chega e senta no banco. Traz consigo uma carta cujo conteúdo a desespera. Escancara a ansiedade pelo futuro muito próximo, mas esforça-se muito para conter toda a angústia dentro de si.
Abre a carta e finge não acreditar no conteúdo. Lê temerosa em voz alta os trechos mais relevantes:
ROSA
“Camarada, o velho mundo está atrás de você. Se não quiseres ser engolida por ele corra; e corra sem olhar pra trás: corra como um anjo que contempla apenas o futuro à frente, voando em direção à glória do mundo.
Esquecer, neste momento, é entregar-se plenamente à paixão por um mundo melhor”...
Coça o rosto e olha para dentro de si mesma à procura de como se livrar da desesperadora necessidade da despedida.
ROSA
Ai Daniel, e eu que te amo tanto... Mas não posso trocar o futuro do mundo pelo egoísmo de um amor!
Como explicar que como a ti amo a revolução? Como te fazer entender que não vou-me de ti, mas por ti. E que ir comigo é uma loucura: é perigoso para si mesmo, meu amor!
Olha novamente para a carta como se precisasse lê-la, como se recusasse-se a admitir que esperava já por tudo aquilo e estivesse há meses preparando as respostas que tinha agora tanta insegurança em dar.
ROSA
“E precisamos estar fortes. Fortes para derrubar definitivamente o Leviatã e enterrar seus sonhos de tirania. Para abater o poderoso mostro que nos oprime”...
“Por isso poupemo-nos. Poupemos aqueles que amamos do monstro poderoso que por nos perseguir os assombra a vida. Fuja, Rosa, exile-se nalgum lugar onde esteja segura e donde nos procurará novamente para voltarmos e então triunfarmos!”
Abandona a carta ao banco. Respira, agora claramente tentando conter o romantismo que aquieta-lhe a alma desde a meninice. Contempla pela primeira vez uma decisão tão importante: Daniel ou a Revolução?
ROSA
Daniel, se soubesse quanto te amo aceitaria minha decisão qual fosse ela!
Sai rápido, como que a tentar esconder da platéia o inevitável choro.
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domingo, 5 de abril de 2009
críticos encontram anjos
[escrito originalmente para a Revista InVerso]
Anjos, arte e literatura no novo livro de Cees Nooteboom
Um encontro com um anjo. Dessa situação sublime lançada já na epígrafe, citando O Paraíso Perdido de John Milton, na qual Adão e Eva são conduzidos para fora do paraíso por um anjo, Cees Nooteboom constrói uma narrativa que se apóia num lirismo ora cético ora acalentador, um lirismo sustentado por suas habilidades de esteta e pelas possibilidades de referência que a formação intelectual das personagens permite, chegando a se aproximar da prosa poética em alguns trechos mais intensos e exigindo considerável nível de referência do leitor para compreender citações como a de Walter Benjamin numa segunda epígrafe ou reconhecer as obras de arte comentadas.
O anjo é Alma, estudante de artes brasileira, especialmente fascinada com a representação artística de anjos, que após sofrer um estupro vai com a melhor amiga, Almut, para a Austrália, o país em que sonhavam viver juntas. Depois de um período de descobertas ao redor do país, o fatídico encontro acontece em Perth: Alma interpreta um anjo numa performance e é encontrada pelo crítico literário holandês Erik Zondag, que participava de uma feira literária. Uma cena breve, mas que concentra muito lirismo e é o ponto crucial da narrativa. Ainda que o destino se encarregasse de um segundo encontro, num spa austríaco: o crítico em crise e ela uma massagista angelical.
Em quantas palavras se pode pensar sem sair do mesmo espaço?
Mas o grande deleite de Paraíso Perdido está nas construções, quando Nooteboom faz jus à frase que abre o trecho. Tanto no trabalho imagético [as descrições das situações mais oníricas aproximam-se da prosa de contemplação neo-sensorialista de Yasunari Kawabata] quanto nos trechos encantadores, como “as mulheres voam de um jeito diferente” [de Alma] ou o apocalíptico “a metáfora já viveu a maior parte dos seus dias, só resta mais este. A vida, se insistirmos mais um pouco nessa abstração tola, é uma cozinheira desastrosa”, Cees Nooteboom utiliza-se de complicados recursos narrativos e dá-lhes um tratamento poético que o torna um autor sem tempo: Paraíso Perdido é um livro que fala muito pouco sobre sua época, mas que ao escancarar poeticamente as personagens obtém interessantes leituras da arte, da literatura e do próprio homem em capítulos curtíssimos, cujo estilo remete ao de autores como Jorge Luis Borges ou Ítalo Calvino.
A alternância de foco entre aparentemente três narradores permite diferentes aproximações do fato narrado. Prólogo e epílogo são narrados por um escritor [talvez alter-ego do próprio Nooteboom] em situações independentes da história principal e que sequer a afetam. Uma leve crítica a uma sociedade que lê muito pouco.
As histórias são contadas através de dois narradores: Alma conta a própria em tom quase confessional [e é por sua voz que Nooteboom tece pequenas críticas de arte]; já Erik não é confiável o bastante para contar a sua. A onisciência do narrador em terceira pessoa permite que Erik esteja sempre enquadrado na cena, e talvez sua presença seja mais importante que seu olhar. É esse narrador que vai nos contar muito mais sobre a personagem do que ele contaria em primeira pessoa. E é ele quem nos conta aquilo que Erik não se lembra quando não pudemos ouvir.
O livro:
Paraíso Perdido, de Cees Nooteboom. Tradução de Cristiano Zwiesele do Amaral, Cia das Letras, 2008. 32 reais.
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cesare
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