i
do íntimo
do âmago
emana
pela respiração
um desejo
irresponsável
de solidão
poderia manter
os olhos fechados
e sentir-me
escondido
[e talvez protegido]
de tudo
de todos
do mundo
mas o mundo sorri,
[para mim?]
se ri
[de mim?]
e morre
ii
ecoa fátuo
um réquiem
silencioso
e brando
e um vento frio
vem
e leva consigo
o melhor
de mim
sinto
morrer um pouco
e o gosto
de choro
é o gosto
do futuro
então o medo me aflige
e fujo do desejo
de recriar o mundo
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
sobre o medo
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cesare
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
retalhos
Recentemente, convidado pela diretora Marli Marques, fiz o texto para uma peça chamada "Retalhos de Vila das Águas", que foi montada pela Companhia Bella de Poços de Caldas e em breve poderá ser vista por aí!
Quando cheguei, o grupo já estava ensaiando, já com personagens e cenas pensadas, uma coisa meio "Seis personagens à procura de um autor", com as personagens se apresentando e eu tendo que transformar em texto o destino delas...
O texto que segue é uma espécie de release para envio a festivais:
Para ter o estatuto de cidade-estado, a polis grega já tinha obrigatoriamente que possuir uma praça. O tempo, a modernidade e a urbanização tornariam-na o principal centro de convívio social das cidades, onde a coletividade se tornava cada vez mais individual.
Na fictícia Vila das Águas, a praça serve de cenário para encontros furtivos: flertes, discussões e despedidas; idas e vindas; felicidade e desespero. Seja a chegada do trem ou a performance da banda do coreto; uma brincadeira infantil ou uma visita ilustre [de personagens como Carmem Miranda, Getúlio Vargas ou Dom Pedro II]: na termal e turística Vila das Águas é a praça que testemunha todas as histórias.
É a praça que vê o sonho de Maria do Rosário transformar-se em loucura. Que vê [a menina] Esperança ser perdida e encontrada e que testemunha um desesperado pedido de assassinato passional ou a leitura/escritura de cartas que seriam os maiores documentos históricos da cidade. É a praça que junta e organiza esses retalhos de memória como num álbum de fotografias. É nela que as vidas das personagens deságuam umas nas outras e correm se acaudalando entre o cômico, o trágico e o lírico, até cessar em silêncio forçado.
A peça "Retalhos de Vila das Águas" faz isso: junta fragmentos do que a praça viu e ouviu e apresenta em situações alegóricas o fantástico-corriqueiro da vida provinciana durante a tumultuada virada do século XIX para o XX.
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cesare
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
diante do abismo
Vi que admirados me observaram por horas e admito que a situação me agradou tanto quanto elegias de poetas. Chegaram ali timidamente, tropeçando nas próprias risadas, cambaleando ombro a ombro, um amor tão evidente quanto as neves de outubro ou as páginas rasgadas.
Quando comecei a dançar não faziam mais questão de disfarçar e apontavam-me com os indicadores ora gargalhando ora sussurrando burburinhos com infâmias e deliberações especulativas e fantasiosas a meu respeito. Julgaram-me lindo, podia crer, e julgaram-me santo. Aprisionaram-me a imagem em pensamentos e desejaram-me como se deseja uma tempestade. E ainda antes que me atirasse, meu desejo soprou-lhes frio como a descoberta do amor ou o encontro com a morte.
Quando saltei, vi seus amores espatifarem-se no chão e espalhar-se feito fluido fertilizando solo, onde brotaram delírios. Seus olhares vidrados acompanharam-me a queda e perderam-se desvairados quando abri as asas e voei, instantes antes de beijar o abismo.
Lembro que então ela esquentou as mãos apertando firme as dele e ele conseguiu pegar ainda no ar seu coração que saltara pela boca como se quisesse também levantar voo. A salvo então, protegeram-no como antes de entregá-lo ao outro, sem por um instante despregar de mim os olhos, nem mesmo quando o sol ofuscava o brilho de minha coreografia e ameaçava cegá-los.
Fascinados por mim, sequer perceberam que o céu os celebrava com um teatro de nuvens enquanto atiravam-se eternamente num abismo repleto de girassóis e sonhos.
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cesare
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20:26
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
espetáculo
súbito, o palhaço
pôs-se firme frente aos holofotes.
sem qualquer movimento
organizou o ballet de sombras
numa dança lúdico-lúcida sincronizada.
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cesare
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19:51
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
dois desdéns fingidos, um flerte e a prontidão da justiça em Tartufo, de Molière
[publicado na Revista Wave]
O rapaz entra esbaforido. Acabara de descobrir que sua noiva desposaria outro homem por ordem do pai. Discutem a amplitude do amor dos dois. Desdenham dele. O rapaz a aconselha que siga a determinação. Ela se apresenta pronta a submeter-se, já que é ele quem aconselha. Fazem cena exagerada, disfarçando muito mal o amor que os deixa tensos em cena. Não fosse a eloquente presença da criada botar-lhes os pés no chão e tudo estaria perdido para o amor dos dois. Ela tem que puxar um e o outro ao centro do palco, fazê-los dar as mãos e confirmar que seu amor pode vencer a ameaça. Depois tem trabalho para separar os namorados falastrões cada um para seu rumo.
A cena é de Tartufo [1664], clássica peça do rei da comédia francesa, Molière, famoso por ter morrido efusivamente aplaudido em cena [da peça O Doente Imaginário, de 1673] e ter dado novo sentido ao gênero que se encontrava combalido, não gozando de nenhum prestígio até seu aparecimento. Seu cenário é a então corrente Paris do século XVII, da graciosa corte do Rei Sol, Luis XIV, quando a modernidade ainda nem ameaçava ruir a aristocracia em seus velhos costumes e apenas começava a borbulhar no imaginário da burguesia. Molière, muito à frente, já fazia rir da ainda embrionária decadência dos costumes.
As personagens dessa cena, a que encerra o segundo ato, são Valère, Mariane e Dorine, a criada. Pouco antes, Mariane e Dorine discutiam o amor da primeira por Valère, seu noivo. Prometida em casamento ao moço, Mariane agora deveria por ordem do pai casar-se com Tartufo, o falso beato cujo angelical comportamento o arrebatara e fizera inconsequente desonrar a promessa da filha.
A situação tragicômica do desdém fingido, ridículo e dissimulado dos dois em meio às inúmeras críticas alegóricas à sociedade francesa é uma doce intransigência, a cena mais desnecessária da peça para simplesmente rir-se da paixão, uma pequena digressão de amor.
a
Molière à época gozava de prestígio como o grande comediante da França. Com ásperas análises sociais, suas peças iam além do riso: divulgavam ideias e estimulavam o pensamento crítico e atuante. Incomodavam, pela falta de sutileza, aos mais diversos estratos e tirava gargalhadas de tudo e de todos, o que acarretou-lhe problemas com a censura e a Igreja. Especialmente por Tartufo, um sacerdote mais exaltado chegou a conclamar: “sacrifique o autor no fogo, cujas chamas hão de ser-lhe o prenúncio do inferno!”.
Mas se antes o ainda apenas ator já peitara a todos e tornara-se grande com a menosprezada comédia, a despeito de ser então a tragédia maior garantia de fama e sucesso, o dramaturgo teria que ceder um pouco seu arrebatamento à onipotência do Príncipe. Mas o mundo estaria salvo para Tartufo e Molière faria retumbante sucesso no papel de Orgon.
b
Tartufo, a personagem-título, demora a aparecer em cena. É ansiosamente aguardado até o terceiro ato, precedido de muita reputação [é em torno de si que se desenrolam os diálogos dos dois primeiros atos e inclusive a desnecessária cena dos desdéns]. Quando ele aparece [o noivo por quem Mariane trocaria Valère, o anjo que conduziria Orgon e toda a família ao céu, o falso beato tirando proveito da fé alheia] os conflitos começam a se apresentar e resolver tão rapidamente quanto sua ingenuidade permite. O “vilão mal-intencionado”, não consegue conter o desejo e atira-se sobre a mulher de seu anfitrião, ainda que essa atitude o desmascarasse. Fosse o vilão tão mesquinho e calculista, casar-se-ia com Mariane e viveria bem às custas de Orgon. Mas lá foi Tartufo dar ouvidos ao amor, seguiu seu desejo e botaria o plano a perder não fosse tão longe a cegueira de Orgon, que transferiria ao beato todo o patrimônio como prova de confiança mesmo após o flagrante do filho no primeiro flerte:
Uma cena apresenta Damis e sua revolta diante da atitude do pai, que anunciara o casamento de Mariane com o beato. Ele se esconde dentro de um gabinete e flagra, numa das primeiras aparições de Tartufo o grande ápice da peça, a demonstração de fraqueza que incrimina o vilão: o flerte.
Estão em cena Tartufo, Elmire [a esposa de Orgon, pai de Mariane e Damis] e Damis, escondido. Tartufo toca o joelho de Elmire, aproxima-lhe a cadeira e confessa o amor. Provocado, [“o que desejo é apenas uma conversa em que seu coração de revele e nada me esconda” ou “acho que todos os seus suspiros dirigem-se ao céu e nada aqui em baixo atrai os seus desejos”] Tartufo revela-se verborrágico e audacioso ao ofertar-lhe o coração, mas o arrebatamento de Damis interrompe a confissão e rouba a cena [e acaba com o plano de Elmire de trocar seu silêncio pela rejeição de Tartufo em casar-se com Mariane]. Sua insatisfação o leva a denunciar o beato ao pai, a despeito da mãe preferir a discrição, e é expulso de casa por questionar tão pura alma.
Cego, apaixonado por Tartufo, Orgon passa-lhe a propriedade de todos os bens e o falso beato os exige prontamente após ser flagrado por Orgon, escondido como o filho numa armadilha tramada por Elmire, em uma segunda investida pelo coração de sua esposa.
Tartufo exige pela força da justiça os bens e entrega a ela os segredos comprometedores de Orgon. A peça se encaminha para a vitória do vilão valendo-se da boa fé da aristocracia.
Mas a justiça não tarda em magicamente se fazer e pune o larápio devolvendo os bens a Orgon. Num abrandamento necessário para ser aceito pela censura, no final a Justiça do Príncipe se sobrepõe ao talento e vilania de Tartufo e até Valère toma de volta a mão de Mariane, a despeito do desdém fingido de algumas cenas antes.
c
O núcleo donde se dá a explosão dramática em Molière é a interpretação do ator. Foi de dentro da cena que ele descobriu o teatro e é lá que o teatro acontece. O texto de Tartufo não passa de sequência de falas, um script com apenas uma ou outra rubrica, quando estritamente indispensável. A capacidade de improviso e personificação de alegorias do ator deve não apenas dar vida à personagem, mas conduzir todo o ritmo da peça.
O minimalismo cênico atira toda a representação apenas ao jogo de relações e é por dominá-lo que o vilão Tartufo sairia como o vencedor. Apenas Cléante e Dorine, menos influenciados por Tartufo e menos influentes na família, não perdem o controle das ações movidos pela paixão. Os racionais são os impotentes. E os poderosos entregam suas vidas a impostores, charlatães e todo tipo de vendedores de fé e de sorte.
O grande problema estaria justamente aí. A Igreja viu-se ofendida por ter um personagem beato [cuja caracterização se assemelhava muito à dos sacerdotes] escancarando seus defeitos como vilão e tapeando a fé da aristocracia. Molière poderia utilizar suas histriônicas personagens alegóricas, equiparadas por Baudelaire aos deuses e heróis gregos nas lendárias Flores do Mal, para fazer troça com todo o mundo, desde que não ofendesse a fé em Deus e no Príncipe.
Então vem a fantástica lição de moral do final, corrige as intransigências, dá a vitória ao bem e permite que Tartufo se torne parte do cânone da literatura ocidental.
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cesare
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