sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

outro amor de um gato

[vai
volta
o amor de um gato

Kobayashi Issa]

o meu gato deu de se apaixonar perdidamente
por qualquer rolo de lã
que o faça sentir especial

deu pra me trocar por uns miados noturnos
por um pular de telhado em telhado
por um refestelar-se na chuva
e ronronar com outros gatos...

e eu me pego aqui acompanhando a lua
ansioso pela volta de seu amor

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

o voo

abriu as asas
e atirou-se épico:

lindo, hábil, acrobático
o voo
mais que outras fantásticas exibições
prendeu atônito
o olhar
da caprichosa
platéia de musas

eróticas, divinas, inacessíveis
ovacionaram o herói
ainda antes
do pouso triunfal

e quando o dia dormiu
ele enfim
relaxou as asas

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

ruínas

ruínas personificam história:
legado de civilizações
mitos de valentia
fábulas de estados

o que vão contar
de meus pensamentos
arruinados?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

na ampulheta o tempo parou [e o ar carregou consigo alguns fluidos de felicidade]

ainda que o tempo
fingisse-se
perplexo
desde que a areia
meio que por milagre

parou

de

cair

[um
solitário
grão
ruidosamente
despencado
em
horas
ou
minutos]

parece
que o planeta
não parou
a translação

percebemos flutuando seu movimento tranquilo
[na atmosfera onírica flutuávamos em hélio e tínhamos estridentes vozes pueris]
inertes
imóveis
irresponsáveis
[crianças incrivelmente felizes gozando indeléveis a possibilidade de flutuar na surrealidade do tempo – a ruptura drástica da perspectiva proporcionada por aqueles minutos de desatenção nos quais o infinito pareceu tão real, próximo e atingível que jurávamos estar a apenas algumas estrelas de tocá-lo]

hoje foi dia
de acreditar
que felicidade
flui pelo ar

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

três livros

há alguns dias a cronópios propôs que seus colaboradores fizessem uma lista com os três melhores livros que leram em 2008, independente de ano de lançamento, o que propiciou grandes clássicos nas listas e resultou num festival de boas referências.

num ano de leituras diversas e picadas, mais atrás de estilo que de história, citaria também "Rituais" de Cees Nooteboom, ensaios de Octavio Paz e um volume de poemas de Mallarmé além dos seguintes três:

gaston bachelard, "a poética do espaço"

Ensaio teórico do poeta ocasional, cientista e filósofo francês Gaston Bachelard, "A Poética do Espaço" numa vasta obra que destaca textos sobre o pensamento científico e as famosas psicanálises dos elementos talvez seja o mais relevante em reconhecimento e alarde.
É um ensaio em que um leitor fino, com a bela poesia francesa de Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé e Bréton, a sensibilidade de Rilke ou o delírio de Milosz a disposição, discorre sobre a relação da poesia [do eu-lírico] com o espaço [o mundo, a casa, o interior de uma gaveta].
Abalador durante a leitura [ao menos a mim foi desvario], o texto suscita a imaginação e a emoção enquanto desvenda sutilezas do fenômeno poético.

* * *

luigi pirandello, "seis personagens a procura de um autor"

Peça mais conhecida do dramaturgo italiano, a tensão de "Seis Personagens a Procura de um Autor" inicia-se com a absurda situação em que se encontra o diretor de uma companhia num ensaio de uma montagem. Aparecem-lhe esbaforidos e impertinentes seis personagens já criados e com destinos traçados que necessitam para existir que sua história seja contada.
Solicitaram que aquele diretor realizasse seu vexador conflito familiar e escancararam o método de criação do interessante e criativo prosador do absurdo.

***

yasunari kawabata, "o país das neves"

Minha descoberta de Kawabata. Depois de apaixonar por um rosto refletido sobre o crepúsculo num vidro de trem, a prosa leve e lírica conduz Shimamura entre amores pouco discretos no país das neves.
Prosador de pena ágil, Kawabata desenvolve no romance o mesmo estilo de seus contos da palma da mão, com entrelaçamento de imagem e ação por um observador que, especialmente interessado pelas sutilezas, fotografa-as escondido como se fizesse um filme de palavras que culminaria num abrupto silêncio ao atingir o ápice caótico em sua mais radiante cena.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

um amor não correspondido

Diferente de Hauaná, Doldegan não costumava desenvolver muito as personagens. Nada de nuances psicológicas ou estudos comportamentais: tão logo as concebia atirava ao mundo e desejava-lhes solenemente um “arrepie”. As personagens passavam então a se meter em conflitos tão insólitos quanto suas imaginações estimuladas pela substantiva realidade que o criador apresentava fossem capazes e as estórias vinham como que encomendadas, praticamente prontas à mercê de seu estilo.
Tudo correu bem até o dia em que um de seus rapazes inconclusos encontrou pelo caminho a mais complexa das garotas escapulidas do gênio de Hauaná. A menina derrotou-o em todos os jogos de palavras e habilidades - inclusive naquele em que apenas as personagens quando insanas ousavam duelar, o amor - e levou-lhe irremediavelmente os pensamentos todos, deixando-o tão sem ação que o autor foi convocado a intervir:

“Caro criador, conheço sua fama de não interferir no destino das personagens que por ventura atira ao mundo, mas deparei com uma situação que minha condição de incompletude não permite resolver: me arrasto de amor!
Solicito cá da beira da insanidade que me tornes capaz de conquistar a personagem de meus sonhos: que me tornes herói, um mito. Que me dês as palavras que encantarão seus exigentes ouvidos, palavras que desafiarão sua complexidade e atirarão comigo a flertar com a loucura!”

Quando deu por si, a personagem de Doldegan tinha o estridente nome gritado por toda a arena, que abarrotada aguardava outra de suas históricas exibições. Enquanto ele dançava [olés sensacionais às investidas do touro e acrobacias indescritíveis entre os chifres letais], uma voz anunciava efusiva seus numerosos feitos e na imaginação de cada donzela ele era feliz para sempre com uma esposa diferente.
Dedica à amada o espetacular golpe de misericórdia, ao que ela dá de ombros: ainda que todas as mulheres cobrissem de flores seu caminho, a donzela de Hauaná ainda insistia em rejeitá-lo com veemência. Fingia não ouvir suas deleitosas palavras, algumas comprovadamente infalíveis, roubadas dos maiores poetas e conquistadores de toda a literatura, e fleumática fazia seu coração de passarela.
Ciente do desespero de sua criatura, da odisséia em que se transformara aquele despretensioso encontro, Doldegan escreveu a Hauaná implorando um ponto fraco da complexa musa, uma brecha qualquer que a vulnerabilizasse por instantes que sua capacidade de narrador transformaria em borboletas e arco-íris e diamantes e os faria juntos tombar d'amor, vertendo o conto dos dois em saraivada de aplausos, descoberta de eternidade ou desejo atendido sempre que alguma ingênua imaginação o realizasse e deixasse escapar por aí seu desvario.
Mas Hauaná recusou-se a escancarar a personagem. “Cries tu mulheres fascinantes para que tuas personagens se percam!”. E criou então, por represália, um coadjuvante que a arrebatou eternamente sem mais que um olhar, para o eterno desespero da personagem de Doldegan.
Frustrado, insano e fracassado, restou-lhe pela eternidade a loucura e a imensurável honra de mito enquanto protagonista da única história de amor não correspondido daquela intrépida literatura de criadores mágicos.