Deixo um fluxo voluptuoso me tomar e me levar e fazer perder o rumo e o prumo e o pouco de razão que inconscientemente procuro perder.
E aonde chega esse fluxo conduzindo a inconsciência do poeta? Ao verbo. E o verbo é ser? E o verbo é pensar? Agir? Sentir? Soluçar? O verbo é correr? Fugir desse fluxo voluptuoso que me engole e me mente promessas de paz e ideias e poemas e carícias? Esse verbo por acaso seria amar? Gritar? Espernear? Qual é? Se mostre, porra!
E então me lembro que escorria num fluxo todo meu. Um fluxo cândido, doce. Uma dança que me saltava do âmago e se mostrava vigorosa. Minha própria resposta à opressão e aviltamento. Ao atualmente. Um verbo também difícil de identificar e de controlar e de sufocar, mas um verbo que agride e consola e ama na medida da minha fúria e da minha angústia e do meu caos.
E então me lembro que morria cheio de louros uma morte heróica. Lembro que nascia lá no céu e me fazia fio e fluxo e torrente e desaguava destruidor na realidade. Lembro que sonhava e nos meus sonhos todas as coisas prostravam no aguardo das minhas ordens e ações. No aguardo dos meus pensamentos. E estes não eram tolices ou ingenuidades que pudessem ser tomados assim, abruptamente por qualquer fluxo voluptuoso que brilhasse ou sorrisse ou prometesse plenitude, felicidade ou um pouco de carinho. Por qualquer fluxo voluptuoso que me fizesse derramar sobre delírios de paixões e afetos e mistérios e me espalhar tanto que rarefecesse, desvanecesse, evaporasse e chovesse e arrebentasse pedras e molhasse sonhos alheios e fizesse bater no ritmo frenético da minha canção um perturbado e inquieto coração.
Ah, esse fluxo que me toma e torna-se verbo!
Ah, esse poema em que me derramo!
Só silencio quando encontro o sono.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Postado por
cesare
às
21:55
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