domingo, 5 de abril de 2009

críticos encontram anjos

[escrito originalmente para a Revista InVerso]

Anjos, arte e literatura no novo livro de Cees Nooteboom

Um encontro com um anjo. Dessa situação sublime lançada já na epígrafe, citando O Paraíso Perdido de John Milton, na qual Adão e Eva são conduzidos para fora do paraíso por um anjo, Cees Nooteboom constrói uma narrativa que se apóia num lirismo ora cético ora acalentador, um lirismo sustentado por suas habilidades de esteta e pelas possibilidades de referência que a formação intelectual das personagens permite, chegando a se aproximar da prosa poética em alguns trechos mais intensos e exigindo considerável nível de referência do leitor para compreender citações como a de Walter Benjamin numa segunda epígrafe ou reconhecer as obras de arte comentadas.
O anjo é Alma, estudante de artes brasileira, especialmente fascinada com a representação artística de anjos, que após sofrer um estupro vai com a melhor amiga, Almut, para a Austrália, o país em que sonhavam viver juntas. Depois de um período de descobertas ao redor do país, o fatídico encontro acontece em Perth: Alma interpreta um anjo numa performance e é encontrada pelo crítico literário holandês Erik Zondag, que participava de uma feira literária. Uma cena breve, mas que concentra muito lirismo e é o ponto crucial da narrativa. Ainda que o destino se encarregasse de um segundo encontro, num spa austríaco: o crítico em crise e ela uma massagista angelical.

Em quantas palavras se pode pensar sem sair do mesmo espaço?

Mas o grande deleite de Paraíso Perdido está nas construções, quando Nooteboom faz jus à frase que abre o trecho. Tanto no trabalho imagético [as descrições das situações mais oníricas aproximam-se da prosa de contemplação neo-sensorialista de Yasunari Kawabata] quanto nos trechos encantadores, como “as mulheres voam de um jeito diferente” [de Alma] ou o apocalíptico “a metáfora já viveu a maior parte dos seus dias, só resta mais este. A vida, se insistirmos mais um pouco nessa abstração tola, é uma cozinheira desastrosa”, Cees Nooteboom utiliza-se de complicados recursos narrativos e dá-lhes um tratamento poético que o torna um autor sem tempo: Paraíso Perdido é um livro que fala muito pouco sobre sua época, mas que ao escancarar poeticamente as personagens obtém interessantes leituras da arte, da literatura e do próprio homem em capítulos curtíssimos, cujo estilo remete ao de autores como Jorge Luis Borges ou Ítalo Calvino.
A alternância de foco entre aparentemente três narradores permite diferentes aproximações do fato narrado. Prólogo e epílogo são narrados por um escritor [talvez alter-ego do próprio Nooteboom] em situações independentes da história principal e que sequer a afetam. Uma leve crítica a uma sociedade que lê muito pouco.
As histórias são contadas através de dois narradores: Alma conta a própria em tom quase confessional [e é por sua voz que Nooteboom tece pequenas críticas de arte]; já Erik não é confiável o bastante para contar a sua. A onisciência do narrador em terceira pessoa permite que Erik esteja sempre enquadrado na cena, e talvez sua presença seja mais importante que seu olhar. É esse narrador que vai nos contar muito mais sobre a personagem do que ele contaria em primeira pessoa. E é ele quem nos conta aquilo que Erik não se lembra quando não pudemos ouvir.

O livro:
Paraíso Perdido, de Cees Nooteboom. Tradução de Cristiano Zwiesele do Amaral, Cia das Letras, 2008. 32 reais.

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