[um texto de maio de 2007 que achei organizando as coisas. foi uma introdução a uma entrevista com a banda paulistana FireFriend realizada por Thiago Venanzoni.]
Da tentativa oswaldiana de retomada do verdadeiro homem-brasileiro, seu “tupi or not tupi” [o conhecido Manifesto Antropofágico de 1924], que ele próprio nomeou e divulgou aos ventos como antropofagia [comer o homem], pouco ainda se mantém vivo e perceptível na massiva produção [anti]cultural brasileira. Talvez nem a brasilianista, que manteria raízes aterradas e bem vincadas neste solo tropical – ainda que produzida fora dele – mantenha ainda relação próxima com aquela idéia inicial de comer o homem por seu cérebro e não por seu cu ou sua carne, muito menos saborosa que a de bovinos ou suínos que são já há algumas décadas especialmente “cultivados” [por falta de palavra que exprima melhor a intenção] pra consumo humano.
Já o próprio homem, que felizmente não visa a consumir a própria carne – embora ainda venda pouco de si para os canibais que se enfileiram uns sobre os outros à espreita da oferenda dos mais fracos – não teve qualquer tipo de melhoria no cultivo de qualquer parte de seu corpo [e não venha dizer que as academias da vida têm tal finalidade, já que sua função é em primeira instância estética e se houver qualquer interesse por amaciar a carne pra facilitar a mastigação ele não é declarado – ou será?], sequer de seu cérebro, que Oswald propunha ser a parte consumível [talvez não o cérebro físico como consumira o doutor Hannibal Lecter, mas as ideias que ele guarda dentro de si].
Num segundo momento de nossa história cultural, quarenta anos depois das intransigências do senhor Oswald de Andrade, um grupo de baianos cabeludos e cheios de rimas & ritmos resolveu retomar a idéia antropofágica, retocando-a e relendo-a a sua maneira. Capitaneados por Caetano, Gil e José Agripino de Paula [que não vejam que deixei Tom Zé e Glauber Rocha de fora da primeira lista], os tropicalistas representariam para o pós-modernismo brasileiro o mesmo que Bob Dylan e Allen Ginsberg representaram no país que mais vende, consome e venera a própria cultura no mundo: o gigante cultural, bélico e econômico, cujo nome traduzido pro português que o brasileiro antropofágico adaptou de Camões é Estados Unidos da América. E lá, como cá, os músicos, mais acessíveis a toda a gama consumidora, tiveram aceitação maior e vida mais longa que os escritores e cineastas e alcançaram quase inabalável status de semideuses.
Depois da “geração” que entoou Panis et Circensis fora do contexto do Império Romano, a produção cultural pop brasileira limitou-se basicamente a tentar emular o que se produzia fora [importar tendências e apenas copiá-las, sem acrescentar algo próprio ou algo brasileiro a ela]. Talvez exceções sejam Raul Seixas e Arnaldo Antunes – tão endeusados quanto caricaturados por aí – só que ambos acabaram se marginalizando ou se entregando ao mercado e passando a emular um pouco de sua própria criatividade inicial numa forçada releitura/repetição que acabou se tornando a continuação de suas obras.
Mas a ultimamente tão falada explosão indie, de bandas como Mombojó, Vanguart, FireFriend e tantas outras, ainda que não em sua ideia principal, traz de volta o tema antropofágico. As novas bandas que produzem a si próprias [como fora o ideal punk antes dos meninos rebeldes descobrirem que precisavam de dinheiro pra comprar drogas] leem de forma diferente o manifesto de Oswald, mas fazem também sua antropofagia, engolindo os intestinos & os bagos do rock n’ roll e regurgitando seu som seco e áspero para que a audiência baixe na Internet e ouça em seus mp3players. Não que tudo o que se produz hoje tenha tal tendência. É óbvio que a produção para massas ainda vive de emulação e tenta reproduzir as mesmas fórmulas que funcionam desde sempre, mas a tecnologia – ironia, não Oswald? – foi quem fez o homem voltar a engolir a si mesmo [ou a engolir sua própria arte] pra se reconstruir [e reconstruí-la], pois foi ela que permitiu aos artistas independentes do século XXI divulgar e promover sua arte sem depender da sociedade do espetáculo que Guy Debord já apontava os defeitos [latentes ainda hoje] na época em que os tropicalistas ainda se comiam e não vestiam ternos [como alguns dos indies da geração mp3].
domingo, 1 de março de 2009
A nova antropofagia da cultura pop brasileira engole os intestinos & os bagos do rock n’ roll e vomita tudo em mp3
Postado por
cesare
às
13:28
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