quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

diante do abismo

Vi que admirados me observaram por horas e admito que a situação me agradou tanto quanto elegias de poetas. Chegaram ali timidamente, tropeçando nas próprias risadas, cambaleando ombro a ombro, um amor tão evidente quanto as neves de outubro ou as páginas rasgadas.
Quando comecei a dançar não faziam mais questão de disfarçar e apontavam-me com os indicadores ora gargalhando ora sussurrando burburinhos com infâmias e deliberações especulativas e fantasiosas a meu respeito. Julgaram-me lindo, podia crer, e julgaram-me santo. Aprisionaram-me a imagem em pensamentos e desejaram-me como se deseja uma tempestade. E ainda antes que me atirasse, meu desejo soprou-lhes frio como a descoberta do amor ou o encontro com a morte.
Quando saltei, vi seus amores espatifarem-se no chão e espalhar-se feito fluido fertilizando solo, onde brotaram delírios. Seus olhares vidrados acompanharam-me a queda e perderam-se desvairados quando abri as asas e voei, instantes antes de beijar o abismo.
Lembro que então ela esquentou as mãos apertando firme as dele e ele conseguiu pegar ainda no ar seu coração que saltara pela boca como se quisesse também levantar voo. A salvo então, protegeram-no como antes de entregá-lo ao outro, sem por um instante despregar de mim os olhos, nem mesmo quando o sol ofuscava o brilho de minha coreografia e ameaçava cegá-los.
Fascinados por mim, sequer perceberam que o céu os celebrava com um teatro de nuvens enquanto atiravam-se eternamente num abismo repleto de girassóis e sonhos.

0 comentários: