sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

um amor não correspondido

Diferente de Hauaná, Doldegan não costumava desenvolver muito as personagens. Nada de nuances psicológicas ou estudos comportamentais: tão logo as concebia atirava ao mundo e desejava-lhes solenemente um “arrepie”. As personagens passavam então a se meter em conflitos tão insólitos quanto suas imaginações estimuladas pela substantiva realidade que o criador apresentava fossem capazes e as estórias vinham como que encomendadas, praticamente prontas à mercê de seu estilo.
Tudo correu bem até o dia em que um de seus rapazes inconclusos encontrou pelo caminho a mais complexa das garotas escapulidas do gênio de Hauaná. A menina derrotou-o em todos os jogos de palavras e habilidades - inclusive naquele em que apenas as personagens quando insanas ousavam duelar, o amor - e levou-lhe irremediavelmente os pensamentos todos, deixando-o tão sem ação que o autor foi convocado a intervir:

“Caro criador, conheço sua fama de não interferir no destino das personagens que por ventura atira ao mundo, mas deparei com uma situação que minha condição de incompletude não permite resolver: me arrasto de amor!
Solicito cá da beira da insanidade que me tornes capaz de conquistar a personagem de meus sonhos: que me tornes herói, um mito. Que me dês as palavras que encantarão seus exigentes ouvidos, palavras que desafiarão sua complexidade e atirarão comigo a flertar com a loucura!”

Quando deu por si, a personagem de Doldegan tinha o estridente nome gritado por toda a arena, que abarrotada aguardava outra de suas históricas exibições. Enquanto ele dançava [olés sensacionais às investidas do touro e acrobacias indescritíveis entre os chifres letais], uma voz anunciava efusiva seus numerosos feitos e na imaginação de cada donzela ele era feliz para sempre com uma esposa diferente.
Dedica à amada o espetacular golpe de misericórdia, ao que ela dá de ombros: ainda que todas as mulheres cobrissem de flores seu caminho, a donzela de Hauaná ainda insistia em rejeitá-lo com veemência. Fingia não ouvir suas deleitosas palavras, algumas comprovadamente infalíveis, roubadas dos maiores poetas e conquistadores de toda a literatura, e fleumática fazia seu coração de passarela.
Ciente do desespero de sua criatura, da odisséia em que se transformara aquele despretensioso encontro, Doldegan escreveu a Hauaná implorando um ponto fraco da complexa musa, uma brecha qualquer que a vulnerabilizasse por instantes que sua capacidade de narrador transformaria em borboletas e arco-íris e diamantes e os faria juntos tombar d'amor, vertendo o conto dos dois em saraivada de aplausos, descoberta de eternidade ou desejo atendido sempre que alguma ingênua imaginação o realizasse e deixasse escapar por aí seu desvario.
Mas Hauaná recusou-se a escancarar a personagem. “Cries tu mulheres fascinantes para que tuas personagens se percam!”. E criou então, por represália, um coadjuvante que a arrebatou eternamente sem mais que um olhar, para o eterno desespero da personagem de Doldegan.
Frustrado, insano e fracassado, restou-lhe pela eternidade a loucura e a imensurável honra de mito enquanto protagonista da única história de amor não correspondido daquela intrépida literatura de criadores mágicos.

3 comentários:

lazarillo tormenta disse...

este é o terceiro [junto do "comedor de estrelas" e do "a revolução de alfonso de la torre"] e último das "intransigências, iconoclasmos e acabrunhadores fracassos".

grazi shimizu disse...

finais tristes de histórias de amor me deixam com medo...

grazi shimizu disse...

os três mais polêmicos dentro de mim desde que virei leitora dos textos mágicos...