sábado, 29 de novembro de 2008

os últimos versos de maiakóvski

[originalmente publicado na revista Paralelas, um trabalho de conclusão do curso de jornalismo da unesp bauru voltado para o público feminino]


Apenas os dois na salinha apertada e intimidadora. Ela claramente tenta disfarçar os sentimentos, talvez envergonhada, talvez apenas com intenção de parecer mais forte do que sempre pareceu. Não é de se estranhar que queira parecer durona diante de um senhor de bigode delgado, vários anos mais velho e que desde a postura escancara sua certeza de superioridade. Ele fala algumas coisas irrelevantes, explica dois ou três detalhes acerca do procedimento e a partir daí passa a ela a palavra:

– Desde o princípio sabia que as juras de amor eram mentira, mas quando ele me recitou suave no ouvido os últimos versos de Maiakóvski chorei desesperadamente e me entreguei. Era metido a poeta e se vestia impecavelmente como um bardo a convencer multidões de que a poesia era a salvação para a humanidade. Conquistou-me com o domínio das palavras: não tinha absolutamente nada de atraente nas feições. Já aos vinte e poucos o cabelo começava a escassear e o estado dos dentes deixava claro o descaso que tivera sempre consigo mesmo. Assumia publicamente interessar-se mais por pornografia que por política e culpava a Revolução pelo fracasso do mundo. Tinha o brilho da infância nos olhos e não havia quem não se apaixonasse pelo entusiasmo com que exaltava artistas e poetas. Afastou-me dos amigos mais próximos: implorou-me dedicação especial, dedicou-me infinitos poemas [roubados de outros, não tenho dúvidas] e fez acreditar-me musa. Deixei-me seduzir e toquei o céu por instantes. Escancarei-lhe meu amor e realizei todos os seus caprichos [e como são exóticos os caprichos de poeta!]. Ele me tinha na mão com as palavras, todas elas roubadas de grandes poetas, eu sabia, mas tão belas a saltar-lhe dos lábios [que grande recitador ele era!] que tornei-me deleitosamente dependente dele. Pensava no poetinha o tempo todo e queria-o por perto durante o sono, as compras, o trabalho, a igreja. As horas ficavam penosas distante dele. Mas a Leila jurou-me tê-lo visto com outra. Disse que mais de uma vez. Que a menina era sua colega em psicologia e tinha os olhos verdes mais lindos da universidade. Eu sabia que como ele me conquistara poderia conquistar qualquer uma. Não são os mais belos de todos os versos, os últimos de Maiakóvski? Achei que fossem dele, mas um dia me contou a origem e presenteou com um livrinho: “Vê, que paz no universo. A noite impôs ao céu a servidão de tantas, tantas estrelas. Chegou a hora em que a gente se ergue e em que fala aos séculos, à História, ao universo...”[i]. Que mulher não se apaixonaria ao ouvir uns versos desses? Mas então a Leila me contou que ele andava com a bonitona da psicologia. Chorei. Amaldiçoei-o. Amaldiçoei-me por ter-me apaixonado tão profundamente. Tola, não sabe como são os homens??!!! Claro que homem nenhum ama tanto quanto ele dizia e espalhava aos ventos. Voltei desarvorada pra casa e tranquei-me por dois dias. Mantive-me completamente sozinha. Não atendia a ninguém, nem ao telefone. Sabia que era ele. Não podia deixar que me ganhasse outra vez com as palavras. Sabia que existem milhões de versos tão lindos que me colocariam de joelhos diante dele. Mas então ele apareceu em frente à minha casa e fez escândalo. Assustou os vizinhos. Exigiu [e lá ele estava em condições de exigir alguma coisa depois de me trair?], exigiu que eu saísse e falasse com ele. Gritava que se mataria se eu não saísse, que não podia viver sem mim, que eu era sua musa, o motivo de sua poesia e de sua vida. Fingia não saber do motivo de minha clausura e desespero. Censurei-me muitas vezes diante do espelho e me proibi terminantemente de sair. Ele que fosse se inspirar com a psicóloga dos olhos verdes! E foi então que ouvi o tiro. O primeiro. Saí correndo desesperada para a rua e lá estava ele, com o revólver apontado pra cabeça. Respirei fundo e disse “não te amo mais” tão convicta que mesmo eu, ainda loucamente apaixonada, acreditei. Desculpe pelo choro, mas então ele recitou de novo o Maiakóvski, o poema inteiro, e puxou o gatilho. Acho que o meu grito foi mais ruidoso que o estrondo, Seu Delegado, e os miolos de poeta dele se espalharam pela rua toda, até pertinho dos meus pés. E isso é tudo o que sei sobre ele e sobre o suicídio.

- Tudo bem, garota. Obrigado e acalme-se. Sabe que vai ter que passar a noite aqui, né? É suspeita do assassinato. Até que se comprove que foi suicídio mesmo você é a única suspeita: é a mulher traída, como você mesma disse e o corpo estava em frente à sua casa...

Os pais e amigos do poeta jamais perdoaram a menina por não acreditar em seu amor. Alguns anos depois descobriu-se em seu caderno de poesias inúmeros poemas inacreditáveis dedicados à menina, cuja publicação póstuma tornou-o um dos grandes poetas da língua e fê-la suicidar por remorso. Nas lápides de ambos estão inscritos os últimos versos de Maiakóvski, escritos logo antes de se suicidar.



[i] Versos derradeiros de “Poema Póstumo” [tradução de Carlos Grifo], o último do poeta geórgio-russo Vladimir Maiakóvski [1894-1930], um dos maiores da língua de Dostoievski, Tchekhov e Tolstoi.

sábado, 22 de novembro de 2008

o mágico

brinca com o irreal

e arranca uns sorrisos

pelos quais retribui

[admirável encantamento advém-lhe dos sorrisos alheios]

realizando

pequenos

sonhos secretos


guardião do mistério,

esconde na cartola

os segredos

do mundo


todas as dádivas:

do amor

à salvação

da realidade

à abstração


transforma

com truques mágicos

o cotidiano:

tira do sonho uns deleites

e constrói ilusões inimagináveis;


brinca com o incrível

decompõe a realidade

atiça o desejo


e o desejo aflora

qual essência do viver


e o fascínio pelo mágico

inflama o fluxo do ser

domingo, 16 de novembro de 2008

a história da solidão

Ocaso. A lua sorri sereníssima e anuncia a noite interminável. Nas palavras dum poeta sonhador as estrelas se revoltaram contra o dia e instauraram o apogeu da noite. Brilhariam insuspeitas, impostas solenemente ao céu. E a noite abraçou a vida e o rapaz passou a crer mais que tudo no poder da palavra.

Milhares de lendas e contos incríveis noticiaram o ocaso definitivo. Dentre elas, a mais lírica apontava para uma fuga apaixonada do sol em busca de um futuro glorioso que lhe fora prometido: senhor de si mesmo. Desvencilhou-se então de sua obrigação de trazer luz e calor e passou a brilhar pela própria vaidade. Incandesceu como outros astros e se perdeu no próprio ser abandonando só toda a humanidade. E na noite eterna todos aprendemos a ser só.

A mesma lenda que para um outro povo narra a história da solidão.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

templo

distraio-me diante de ruínas

de tempos gloriosos

enquanto um pássaro relaxa as asas sobre um umbral

algumas velas

queimam tênues chamas

e cai a névoa

e a luz se converte

num segredo inaudito


um silêncio pleno

um desejo de reconstruir

este templo

em tua homenagem


o sol se põe róseo

e leva consigo a percepção


com o cair da noite

desisto dos poemas

e recolho-me à realidade