quinta-feira, 30 de outubro de 2008

crepuscular

Nosso herói não nasceu senhor, impôs-se pela força e virtude para conquistar seu império e sua rainha.

Conquistada a desejada musa, descuidou-se das posses, inebriado e distraído de amor. Corriam nouvellevagueando, apaixonados pelos bulevares e escancarando a todos os sentimentos mútuos.

Celebraram as virtudes do mundo, choraram as angústias falsas dos poetas, entregaram-se à loucura. Morreram de amor e renasceram um para o outro infinitas vezes.

Deslumbraram-se com o céu do alto de uma nuvem e semearam juntos a esperança no cotidiano.

Mas com a primeira flor floresceu a desilusão. Lágrimas que afogariam o mais inflamado amor. E nosso herói venceu tantas batalhas e reconquistou tantas vezes o coração da amada. Mas efêmera, a paixão esvaiu-se irremediavelmente como a luz ao final de cada dia. O cotidiano vencia o amor como a noite vence a luz. E o néscio crepúsculo não iluminou mais que as ruínas das memórias aprazíveis.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

começo de inverno

não floresce a graça

e o pensamento converge

pra desestimulantes invernos


rouxinol perdeu a beleza

e o status de lírico

e virou regra


poesia e arte

são coisa mais rara

que a mais perfeita das ameixeiras em flor


magia e onírico

têm de se camuflar

escondidos na flora


e um poeta contempla

um horizonte de postes

almejando o indescritível

terça-feira, 14 de outubro de 2008

amém? ou questão de ontologia

e se fosse “deus”?

assim, com minúscula:

substantivo impróprio

próprio da literatura

[criação, não criador]

e sem autonomia ôntica

nem tom de divindade?

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

ausências

depois de chorar em todas as despedidas da vida

mesmo nas felizes e necessárias

prometeram-lhe recompensas do mundo

e sentiu-se importante:

resolveu chorar outra vez

[uma última vez]

e despedir-se dessa mania inconveniente

de incomodar-se com a presença

ou com ausências momentâneas


e como um poeta a lidar com as ausências

busca pelas palavras exatas

para ilustrar os sentimentos:


as metáforas estão proibidas aqui

e há apenas idéias rabiscadas em papéis avulsos

e ninguém mais


há apenas um silêncio que angustia

e uns devaneios

sobre duas ou três pessoas

lindas e sorridentes

contando de seus dias mais felizes

as histórias confortantes e perfeitas

que costuma imaginar

para todos a quem disse adeus