Com o avanço da sociedade pós-industrial e o recente predomínio do cinza, o verso niilista de Glauco Mattoso torna-se a clara expressão da relação da arte e da poesia com o novo céu.
Em carta a Aubanel, Stephane Mallarmé, o “rei dos poetas”, prevê que o mistério do segredo que todo homem tem consigo “há de emanar-se num céu extremamente belo”. Se então Mallarmé valia-se da imagem do belo céu azul, cantado amiúde por tantos poetas e retratado brilhantemente pelos maiores artistas desde que o homem começou a se expressar, com a chegada da industrialização e seu desenvolvimento movido a fumaça, pode-se ao menos acreditar que o mistério do homem contemporâneo tornou-se então mais turvo e menos inspirador.
Outrora motivo de inúmeras metáforas e essência da poesia, com o avanço irrefreável do progresso [a tempestade que sopra do paraíso, arruína o passado e empurra o anjo da história em direção ao futuro desesperador, na mais bela de suas leituras, por Walter Benjamin numa de suas “Teses sobre a filosofia da história”] o vasto céu, emprestando a palavra mágica de Baudelaire, foi tomado por um monótono cinza e o brilho noturno da lua e das estrelas foi apagado pela “feia fumaça que sobe”, como cantou Caetano Veloso ao deparar-se com o céu da metrópole. O mesmo céu paulistano que leva o poeta Glauco Mattoso, numa previsão tão pessimista quanto lógica, a considerar que “uma metrópole como São Paulo está na vanguarda do mundo, já que vive agora o que todas as cidades viverão em breve”: um domínio absoluto do cinza.
E talvez seja por conta desse inevitável domínio do anti-lírico que um poeta fescenino tenha sido o que mais prontamente respondeu a um e-mail sobre a relação do novo tom de cor do céu e as artes: a substituição do azul parece ser desoladora demais para a poesia.
Opinião mais radical já explicitava em um de seus mais famosos sonetos, o “Soneto Celeste”: “O cosmo não me inspira qualquer pasmo/ [...] /Não há no céu motivo p’ra entusiasmo”. Partindo-se daí, não é de se estranhar uma declaração como “quanto mais poluída a perspectiva, mais futurista me parece”. Poderia ser a epígrafe explicativa para um poeta de céus cinzentos. E qual seria o futuro da poesia num mundo de céus cinzentos?
Antes do cinza, algumas metáforas do belo e vasto céu azul
Numa das metáforas mais clássicas e belas de toda a literatura, mitologia e filosofia, o céu representa o infinito, o impossível. O desejo de tocá-lo é a metáfora perfeita da eterna busca do homem pelo infinito: a busca que o move em direção ao futuro e que alimenta a chama da existência e da busca por conquistas, que inspirou tão belos mitos e se personifica no desejo de voar.
A tão sonhada sensação do vôo é “indescritível”, definiu Giovani Guerra, 32, piloto amador de aviões monomotores e poeta bissexto. “Ter o vento como adversário sem o suporte do chão, flutuar no ar é certamente a melhor coisa do mundo”, continua.
O desejo pelo vôo, a busca por tocar o céu, é o tema de um dos mais conhecidos mitos gregos: Ícaro constrói asas de cera e voa em direção ao céu azul. Deleita-se com a sensação do vento no rosto, a sensação de desafiar a gravidade. Voa em busca do sol, que lhe derrete as asas e freia tragicamente sua ambição pelo infinito.
A essa metáfora de infinito, contrapõe-se a visão do céu como uma espécie de “telhado” do mundo [e telhado aqui pode ser lido como um limite], uma cobertura que nos protege das intempéries cósmicas as quais estaríamos expostos se o espaço estivesse imediatamente sobre nossas cabeças. Um telhado que esconde-nos da vastidão anaeróbia do universo e filtra o calor do sol, o maior dos astros da perspectiva da Terra, tão cultuado pelas mitologias [deus maior de tantas religiões], que faz do céu seu cenário para o triunfal passeio diurno.
Um telhado que se faz breu ao esconder do sol, mas que se enfeita de outras estrelas, menos brilhantes por conta da distância, mas sempre misteriosas e encantadoras: das mais reverenciadas imagens da poesia, que valeram o último suspiro de um poeta como Maiakóvski: antes do suicídio abriu a janela e constatou que, com a paz no universo, “a noite impôs ao céu a servidão de tantas estrelas”.
E não precisamos fugir dos maiores nomes da arte para perceber a representação das estrelas: da “Noite Estrelada” de Van Gogh às “Constelações” de Miró, estiveram sempre presentes e admiradas.
Mas ainda mais luminosa no céu noturno que as estrelas é a lua, essa diva a quem cantam os lobisomens e tantas das mais geniais mentes criativas da humanidade. E é desesperador crer que todo esse brilho noturno possa vir a se esconder por detrás da camada de cinza.
Esse telhado se estende por sobre a cabeça de todas as pessoas: o céu é talvez a única coisa possível de ser vista de qualquer parte do mundo. Está em todos os lugares, beijando o horizonte num lugar infinito e inimaginável. Desafia explicações físicas acerca das distâncias e é a morada dos deuses nas mais diversas religiões e mitologias: tudo que é digno de elevação sobe aos céus. Inclusive as águas, que sobem e se precipitam, transformam-se em nuvens, outras das belas formas celestes: as “leviandades da criação”, segundo um haicai de Millôr Fernandes. E são as nuvens que convertem-se em chuva, “o choro do céu”, nas palavras do escritor Márcio Cenzi, 29.
E as águas, em sua grandiosidade, refletem e elevam a maiores graus poéticos o céu. Sua capacidade de espelho foi buscar no azul a cor de representação. “Ah, o mar azul!” cantaram tantos poetas.
Mas as águas, enquanto chuva, também são tormenta e tempestade, o que encanta o Glauco Mattoso de poemas como “Chuva Ácida”. Criam lendas de dilúvios, de eternas tempestades que esconderam o céu em tempos mitológicos como agora o faz a fumaça do progresso. Fumaça que esconde ainda o breu no qual se camuflava o corvo quando não se recostava num umbral a cantar seus “nunca mais”.
Fumaça que domina o universo com um cinza tão desolador que faz-nos duvidar se o céu seria ainda o cenário perfeito para mitos tão belos: voaria Ícaro ou dançaria a Tennin sob o céu cinzento?
Talvez o céu cinzento da cidade contemporânea configure-se, mais que na turvidez dos segredos dos homens, numa espécie de ocaso dos mitos, de um desesperador ocaso da arte e da poesia, ainda que lhe reste os encantos de ser enfeitado em um céu festivo, iluminado por coloridos fogos de artifício, nos momentos mais felizes da humanidade, em que, como no belíssimo haicai de Yoshiko Yoshino esquece-se inclusive da geopolítica: “sob fogos de artifício/ ninguém pergunta a ninguém/ de quem é aquele país”.


