[originalmente publicado na revista Inverso]
a infância é certamente maior que a realidade
Gaston Bachelard
A tarde mais colorida da primavera: as crianças divertiam-se dançando entre balões e bolhas de sabão e Luana, irmã de Otávio, desapareceu no infinito céu segurando um pequeno balão vermelho pela corda.
Sentindo-se flutuar, na iminência de viver antes de qualquer um ali [e possivelmente em qualquer outro lugar, mas a ainda tenra consciência de Luana não ia além das ameixeiras que a circundavam] o prazer do vôo, a menina não deu qualquer atenção ao incontido desespero dos adultos diante da cena inacreditável ou aos sorrisos fascinados das crianças, que acompanhavam-na com o olhar pueril-maravilhado todo o trajeto até onde o brilho do sol permitiu na lenta ascensão, coreografada pelo próprio balão em meio à colorida e translúcida dança das bolhas de sabão.
Só lembrou-se do mundo quando engoliu um pedaço de nuvem e descobriu que elas não eram de algodão-doce como lhe jurara o irmão, que apesar de menor especulava e conhecia muito mais sobre a natureza e a metafísica de todas as coisas do universo. E era em Otávio que pensava quando pela primeira vez ouviu a voz da lua e sua imagem se esvaiu no céu para nunca mais ninguém a ver.
E durante dias não falou-se de outra coisa.
Quando Otávio finalmente perguntou pela irmã [quando o sol se cansou do marasmo que substituiu as brincadeiras e o silêncio da noite impôs-se aos ruídos pueris], a mãe disse que a menina fora “passear entre as estrelas, pra onde vão os balões mágicos quando conseguem escapar das mãos das crianças distraídas”. O menino sorriu feliz pela irmã: desejava pra si um futuro entre as estrelas.
Ainda antes da alvorada seguinte procurou-se exaustivamente por Luana no céu escuro. Impossível de encontrá-la no breu, a mãe chorava convulsivamente e desamparada: não sabia como contar a ninguém que tudo aquilo era explicável: prometera anos antes a menina à lua. Pedira ao astro a realização dalgum desejo fútil, do qual não conseguia se lembrar e certamente agora a lua vinha cobrar-lhe a oferenda. E depois de escapar duma nuvem teimosa ostentou serena no céu seu sorriso de satisfação.
A felicidade da lua trouxe bons sonhos às crianças, e o desejo pelo vôo, o desespero pelo infinito, a vontade de sentir o vento aéreo beijar-lhe o corpo era a nítida atmosfera da aurora. Mas com o amanhecer veio a proibição dos balões [considerados os culpados, foram banidos]. E apenas o vento brincou com as nuvens e com os dentes-de-leão por tardes a fio: os pais mantiveram os filhos em casa, temerosos por conta do fantástico vôo de Luana. O mundo perdia a felicidade e o encanto. A realidade desferia inclemente golpe no lúdico e na imaginação e a infância tornava-se prisão.
Abandonado pelos pais, desesperados à procura de Luana, Otávio manteve-se recluso por dias. Eram tempos de lua cheia e as cigarras cantavam-lhe estridentes homenagens, as borboletas dedicavam-lhe a coreografia do vôo noturno e as flores prendavam-lhe o mais doce perfume da primavera. A caprichosa lua exigia a luz de todas as estrelas, exigia só para si a veneração do sol. E Otávio tinha um brilho de estrela dentro de si. E de dentro de seu quarto, após duas noites, já podia iluminar todo o quarteirão.
Buscando liberdade, o menino tentou tanto que encontrou uma fuga pela janela para encontrar todos os figurantes na praça a observar o crepúsculo por detrás das nuvens. Deliciou-se com as luzes e desejou o céu: devaneou qual um anjo ter asas e pôr-se a voar ao longe, subir além das nuvens e buscar a irmã: pegá-la pelas mãos e trazer de volta a felicidade a toda a vila. Trazer de volta os deleites roubados pela lua e salvar seu próprio destino.
E Otávio então subiu ao céu na noite alva por seu próprio brilho. A lua, invejosa, cuspiu uma maldição sobre a cidade: roubou-lhe do lago o reflexo e nunca mais ninguém viu a própria alma fluir nas águas claras. No trajeto até as fronteiras da Via Láctea, o brilho do menino intensificou-se; seu reluzir fascinou e enlouqueceu todas as almas que o viram em sua grande estréia como estrela: a partir de então iluminaria planetas e traria calor e felicidade a mundos tão desconhecidos cujas lindas mitologias criou com o passar monótono do tempo em sua condição supostamente eterna.
A mãe só percebeu o sumiço do segundo filho quando reconheceu uma estrela nova no céu. Correu para o quarto do menino e ele não estava mais sob seu teto estrelado. E jamais disse palavra alguma a ninguém sobre o desaparecimento do filho, mas entregou-se pelo resto de seus dias à adoração daquela estrela cuja luminescência prometia os dias mais felizes. Enlouqueceu ao não encontrar também em sua eterna busca nas estrelas o brilho único do olhar de Luana. Só então professou a todos que, como Luana, Otávio se elevara ao céu e tornara estrela naquela mítica noite primaveril. Só então, já tida como louca inclusive pelo marido, contou-lhes o segredo que ouvira da lua num sonho infantil: “a infância é maior que a realidade!”, exclamou numa noite fria. E o vento se encarregou de levar o recado da mãe de uma estrela aos poetas.
Milhares de anos depois, e apenas alguns minutos antes que encerrasse sua efêmera existência celestial e caísse – realizando um desejozinho infantil, irreal, romântico e apaixonado que mudaria o destino do mundo –, a ciência descobriu um novo astro: uma estrela pequenina que tinha a perfeita forma de um menino.
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