sábado, 27 de dezembro de 2008

“comedor de estrelas”

Um artista astuto costumava gabar-se de sua plenitude. Os amigos e as mulheres que o amavam [“um número incontável”, confirmavam os admiráveis censores daquele tempo] eternizavam seus feitos e espalhando-se pelo vento sua fama atingiu lugares inimagináveis.
Contam que certa vez recebeu uma carta de um importante sábio oriental interessado em travar debate sobre seu impressionante desprendimento do ego. Ignorou-o. Dois papas, trinta e oito presidentes de repúblicas longínquas e sete poetas visionários tentaram insistentemente visitá-lo, mas deram de cara com a porta: à época as visitas das vedetes e das estarletes ocupavam-lhe todo o tempo.
Às vésperas do centésimo aniversário convocou toda a imprensa: “eis minha grande obra!:”. E qual não foi o espanto do mundo ao finalmente compreender, cerca de seis anos depois, que o genial artista vislumbrara a solução para todos os problemas do universo:
Sua tela “comedor de estrelas” esclarecia numa abstração alegórica todas as inquietações, vicissitudes e leviandades da criação e do ser.
E por cerca de mil anos incontáveis romeiros buscaram o Museu de Arte Moderna do vilarejo vertido em metrópole para encontrar-se com a divina tela, sobre cuja magnitude desenvolveram-se cultos e definiram-se dogmas inexplicáveis e inclusive incompreensíveis para o artista, assaz opositor do culto à própria obra.
Um dia um iconoclasta irresponsável incendiou o museu. A obra completa do artista exauriu no fogo e não restou qualquer documento de sua luminosa passagem pelo mundo.
Ínfimos anos mais tarde uma guerra ideológica dizimaria aquela civilização deixando poucas ruínas de seu pensamento.

4 comentários:

grazi shimizu disse...

ou seja, um dia tudo volta ao pó e nada pode nos ajudar a subir ou crescer, afinal de contas um dia também voltaremos ao nada. ou talvez já estejamos nele e ainda não nos demos conta.

[modo deprimido pessimista na potência máxima]

grazi shimizu disse...

e também não importa o tempo, o modo, o esforço e o que foi sua grande obra, um dia ela não existirá, e é só questão de tempo para que nenhum ser do mundo faça idéia de que ela existiu.

grazi shimizu disse...

vim me desculpar pelo surto pessimista da tarde.. rs

lazarillo tormenta disse...

a intenção era mais falar sobre a importância de deus [a grande obra daquele artista - lembra quando disse que a maior invenção do homem era deus?]...
sem a figura alegórica que esvazia nossas inquietações é que tenderíamos ao pó. mas como deus "existe" vamos nos arrastando pela terra enquanto ela nos suportar ou algum iconoclasta irresponsável resolver matar deus...