Um artista astuto costumava gabar-se de sua plenitude. Os amigos e as mulheres que o amavam [“um número incontável”, confirmavam os admiráveis censores daquele tempo] eternizavam seus feitos e espalhando-se pelo vento sua fama atingiu lugares inimagináveis.
Contam que certa vez recebeu uma carta de um importante sábio oriental interessado em travar debate sobre seu impressionante desprendimento do ego. Ignorou-o. Dois papas, trinta e oito presidentes de repúblicas longínquas e sete poetas visionários tentaram insistentemente visitá-lo, mas deram de cara com a porta: à época as visitas das vedetes e das estarletes ocupavam-lhe todo o tempo.
Às vésperas do centésimo aniversário convocou toda a imprensa: “eis minha grande obra!:”. E qual não foi o espanto do mundo ao finalmente compreender, cerca de seis anos depois, que o genial artista vislumbrara a solução para todos os problemas do universo:
Sua tela “comedor de estrelas” esclarecia numa abstração alegórica todas as inquietações, vicissitudes e leviandades da criação e do ser.
E por cerca de mil anos incontáveis romeiros buscaram o Museu de Arte Moderna do vilarejo vertido em metrópole para encontrar-se com a divina tela, sobre cuja magnitude desenvolveram-se cultos e definiram-se dogmas inexplicáveis e inclusive incompreensíveis para o artista, assaz opositor do culto à própria obra.
Um dia um iconoclasta irresponsável incendiou o museu. A obra completa do artista exauriu no fogo e não restou qualquer documento de sua luminosa passagem pelo mundo.
Ínfimos anos mais tarde uma guerra ideológica dizimaria aquela civilização deixando poucas ruínas de seu pensamento.
sábado, 27 de dezembro de 2008
“comedor de estrelas”
Postado por
cesare
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02:01
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4 comentários:
ou seja, um dia tudo volta ao pó e nada pode nos ajudar a subir ou crescer, afinal de contas um dia também voltaremos ao nada. ou talvez já estejamos nele e ainda não nos demos conta.
[modo deprimido pessimista na potência máxima]
e também não importa o tempo, o modo, o esforço e o que foi sua grande obra, um dia ela não existirá, e é só questão de tempo para que nenhum ser do mundo faça idéia de que ela existiu.
vim me desculpar pelo surto pessimista da tarde.. rs
a intenção era mais falar sobre a importância de deus [a grande obra daquele artista - lembra quando disse que a maior invenção do homem era deus?]...
sem a figura alegórica que esvazia nossas inquietações é que tenderíamos ao pó. mas como deus "existe" vamos nos arrastando pela terra enquanto ela nos suportar ou algum iconoclasta irresponsável resolver matar deus...
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